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terça-feira, 9 de junho de 2020

ARTIGO: Dr. Maxwell Vignoli caso Miguel

Branquitude numa conversa pessoal de sexta

Esses dois últimos dias de isolamento não me inspiraram para escrever. E, depois do acontecido com Miguel, um filme passou na minha mente e resolvi fazer essa conversa de sexta agora pela noite.

Quero contribuir nesse momento e preciso falar da minha branquitude. A minha ascendência europeia branca definidora dos meus atuais privilégios raciais, materiais e simbólicos. É desse local de fala que preciso expressar uma mistura de vergonha com indignação. 

Não tenho o mínimo de orgulho de ser descendentes de escravizadores. Os meus antepassados casavam-se com membros da própria família para não mudar o sangue e serviram-se de pessoas escravizadas muitos anos depois da data atribuída a uma abolição da escravatura, 13 de maio de 1888. Duas mulheres escravizadas conviveram com minha mãe e moravam com a família branca “de favor”. Um suposto benefício estendido até os anos 50 do século XX e transformado em relação servilista nas gerações seguintes de mulheres negras até a data de hoje, mesmo com a emenda constitucional do ano 2012 atribuindo os direitos das trabalhadoras  domésticas. As mulheres negras estão no imaginário racista e machista dos brancos como a que nos alimenta e serve.

Daí a importância da historiadora, antropóloga e filósofa negra Lélia Gonzales dizer sobre nossa relação simbiótica com as amas de leite, as cuidadoras do brancos, as servas da mesa, banho e cama.  Como bom homem branco de classe média fui servido pelas mulheres negras domésticas da minha casa. Uma pessoa negra só era vista por mim nas passagens rápidas de pano no quarto e na frente do fogão ou da tábua de passar. E, no Natal, sobre pessoa negras não faltavam anedotas contadas  pelas pessoas da minha família branca. A pele, os cabelos, os dentes e até os olhos faziam as pessoas rirem. 

No colégio, não havia alunos negros. A história de mais de sessenta por cento da população negra brasileira foi negada para  mim e foi ensinado como contribuições negras ritos folclóricos e pratos da culinária. As pessoas negras, no imaginário da escola e dos livros brancos dos anos 70 e 80, eram “alegres” sambistas e boas cozinheiras. Um local feito para divertir e entreter o branco. Continuava a ser servido. 

Foi nesses ambientes familiar e escolar  onde aprendi a ser racista. Neles, ficou bem definido o lugar indesejado, espúrio e asqueroso para não ser ocupado por uma ser humano branco. 

Terminei colégio, faculdade, passei num concurso desejado e alcancei o status social almejado por um homem branco comum. Os privilégios me colocaram a frente das pessoas negras e colocaram as pessoas negras num local aquém de um espaço, colocaram-nas fora do páreo e, numa competição, isso é bom para o branco.

Costurando e alinhavando os costumes racistas da família e escola, uma religião afirmou que a raça negra era um carma coletivo e outra religião atribuiu a razão de pragas aos negros e nunca apresentou um anjo de pele negra. 

A naturalização do racismo no nível profundo de crença é o golpe mais fatal de desumanidade. Como contestar a fala de um espírito de luz ou de um sacerdote? 

Até que assumi a função de servidor público e estava a serviço dessa população negra. Certa vez, sentado na minha cadeira, pensei em como alguns parentes reagiriam vendo-me servir para os que deveriam, segundo eles, me servir. 

Respirei muitas vezes na minha sala para escutar essas pessoas negras. Meninas negras abusadas e exploradas sexualmente, mulheres negras violentadas pelos maridos, trabalhadoras negras da saúde sem vínculos trabalhistas, adolescentes negras trazidas para a casa de pessoas brancas para receberem só moradia, mulheres negras travestis expulsas de casa pela família e vivendo na rua por falta de melhor opção etc.

A realidade do meu trabalho corroeu meus alicerces privilegiados. O problema agora não era ter, era saber o que fazer com o que tenho. Onde, a partir dessa branquitude, posso ser solidário para desconstruir racismo dentro e fora de mim. 

Onde estou, para começar essa mudança repeti as frases: não somos iguais - não existe uma única raça humana - as raças são diferentes - os bens são repartidos de maneira desigual entre as raças.

E reloquei minha posição para observador dos fatos, sem opinar sobre racismo pois não sou vítima dele. Na verdade, sou beneficiário dele. Eu e todos os brancos descendentes de escravizadores somos o fruto bem colhido do servilismo racista. 

Livrar-me desse mal não é fácil. Não me livrei ainda. Nem sei se nessa existência isso acontecerá. Todo dia um pouco. Todo dia um exercício. Todo dia, busco escutar e ler palavras de pessoas negras. Elas me ensinaram, muito tardiamente, o que não aprendi na casa, na escola e na religião: acolher incondicionalmente e servir.

Autor, Maxwell Lucena Vignoli, Promotor de Justiça de Direitos Humanos de Recife-Pe.

Esse blog faz saber, o texto não reflete a opinião do órgão do nosso autor. É um texto pessoal, cedido para divulgação nesse espeço. O texto foi escrito sexta-feira, 05, por isso o título, "Branquitude numa conversa pessoal de sexta."



Um comentário:

  1. Sensível e desafiador! O texto nos remete à época mencionada e ao mesmo tempo nos traz uma consciência crítica e empática aos dias atuais.
    Os recortes de experiências, utilizados pelo autor retratam sua angústia e desejo de transformar aquilo que é a causa...O Racismo.

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